Quando beber deixa de ser uma escolha: O que a psicanálise tem a dizer sobre o alcoolismo?
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Quando beber deixa de ser uma escolha: O que a psicanálise tem a dizer sobre o alcoolismo?

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Entre a angústia, a repetição e o gozo: um olhar psicanalítico sobre aquilo que o álcool tenta silenciar

Beber pode fazer parte de celebrações, encontros e momentos de descontração. Entretanto, para algumas pessoas, o álcool deixa de ocupar um lugar social e passa a exercer uma função muito mais profunda: torna-se uma tentativa de aliviar aquilo que parece insuportável sentir.

O alcoolismo é uma condição complexa de saúde que envolve fatores biológicos, psicológicos, familiares, sociais e culturais. A Organização Mundial da Saúde reconhece que a dependência do álcool não pode ser reduzida à ausência de força de vontade, pois resulta da interação entre múltiplas dimensões da vida humana (OMS, 2024). A psicanálise acrescenta uma pergunta essencial: qual lugar o álcool passou a ocupar na sua história?

Freud demonstrou que nem sempre conhecemos plenamente os motivos que orientam nossos comportamentos. Muitos conflitos permanecem inconscientes e encontram formas indiretas de expressão. Em algumas histórias, aquilo que não consegue ser dito aparece através do corpo, dos sintomas ou de comportamentos repetitivos. O consumo compulsivo de álcool pode, em determinados casos, funcionar como uma tentativa de silenciar a angústia, diminuir a ansiedade, enfrentar perdas, suportar a solidão ou interromper pensamentos dolorosos.

O problema é que esse alívio costuma ser temporário. Quando o efeito da bebida desaparece, o sofrimento retorna e, muitas vezes, reaparece também o desejo de beber. Forma-se um ciclo marcado pela repetição: angústia, consumo, alívio momentâneo, consequências e novo sofrimento. Freud, ao desenvolver o conceito de compulsão à repetição, mostrou que o ser humano pode repetir experiências mesmo quando elas produzem dor e prejuízos.

Lacan amplia essa reflexão por meio da noção de gozo, entendida não como simples prazer, mas como uma forma paradoxal de satisfação que pode coexistir com sofrimento. Essa ideia ajuda a compreender por que conhecer racionalmente os danos causados pelo álcool nem sempre é suficiente para interromper o comportamento. Existe algo naquela relação com a bebida que ultrapassa a lógica consciente.

Por isso, a psicanálise não procura uma explicação universal para todas as pessoas que desenvolvem dependência. Para alguns, beber representa esquecer; para outros, conseguir dormir, sentir coragem, falar com os outros ou anestesiar uma dor emocional ainda sem nome. A escuta clínica busca compreender essa singularidade, perguntando não apenas “por que você bebe?”, mas também “o que acontece quando você tenta não beber?”.

É importante destacar que a dependência do álcool pode exigir acompanhamento médico, psicológico, psiquiátrico e multiprofissional. A psicanálise não substitui esses cuidados, mas oferece um espaço de elaboração subjetiva, permitindo que aquilo que antes precisava ser expresso pelo ato encontre também a possibilidade da palavra.

Talvez uma das perguntas mais humanas diante do alcoolismo não seja “por que você continua bebendo?”, mas “o que se torna difícil demais sentir quando você está sóbrio?”. Muitas vezes, por trás de uma garrafa existe mais do que álcool: existe uma história que ainda espera ser escutada.

Escrito pela Dra. Fabiana Fagundes Barasuol
Psicanalista – Graduada em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde
Psicopedagoga e Neuropsicopedagoga
Professora e Pesquisadora

Agendamento clínico: (55) 99987-6524

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