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Por muito tempo, falar sobre envelhecimento esteve associado às doenças, às limitações e à necessidade de assistência. Mas, convivendo de perto com meus três avós, passei a enxergar essa fase por outra perspectiva. Antes de qualquer diagnóstico, existe alguém com uma trajetória, desejos, vínculos, hábitos e muitos motivos para seguir fazendo planos.
Essa convivência despertou em mim um interesse especial pela Geriatria. Hoje, enquanto realizo minha pós-graduação na área, pelo Hospital Israelita Albert Einstein, percebo o quanto os aprendizados da minha família também influenciam a médica que quero me tornar.
Cuidado que considera cada história
Chegar à velhice não significa deixar de ser quem se é. Cada pessoa carrega experiências, escolhas, laços e uma maneira própria de enxergar o mundo. Por isso, promover saúde também envolve preservar aquilo que traz sentido para cada um.
Pequenas atividades podem dizer muito sobre bem-estar: preparar a própria refeição, caminhar, encontrar os amigos, cuidar da casa, brincar com os netos, dirigir, viajar ou simplesmente manter uma rotina com autonomia. Quando a atenção fica concentrada apenas nas doenças, existe o risco de deixar de perceber o valor dessas conquistas.
Acredito em uma medicina que considere o indivíduo por inteiro. Memória, mobilidade, sono, alimentação, humor, convívio social e capacidade de realizar as tarefas do cotidiano influenciam a maneira como atravessamos os anos.
Esse olhar não precisa começar somente diante de uma dificuldade. Observar mudanças, conversar sobre hábitos e antecipar possíveis desafios também faz parte de uma assistência voltada à prevenção e à qualidade de vida.
Uma medicina que começa pela escuta
Minha trajetória também contribuiu para essa escolha. Passei seis anos longe de Cruz Alta durante a faculdade de Medicina e, depois de formada, decidi retornar para perto da minha família. Estar novamente junto dos meus avós reforçou a vontade de construir minha carreira na cidade onde cresci.
Ainda estou dando forma ao meu caminho profissional, mas sei que quero exercer uma medicina em que exista espaço para ouvir de verdade. Conhecer quem está diante de mim, compreender sua rotina e saber o que é importante para aquela pessoa faz diferença na hora de pensar em qualquer conduta.
Na Geriatria, essa perspectiva ganha uma dimensão ainda maior. Nem sempre oferecer assistência exige intervir mais. Muitas vezes, o essencial está em preservar a autonomia, os hábitos, os vínculos, os projetos e a liberdade de fazer escolhas.
Foi essa compreensão que encontrei nessa área e que desejo levar para minha prática. Porque falar sobre essa fase da vida também é falar sobre afetos, vivências, sonhos e a vontade de seguir participando da própria vida.
No fim, viver essa etapa com saúde não diz respeito apenas a acrescentar anos à existência, mas a ter condições para aproveitar cada momento com dignidade e autonomia.







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