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As relações afetivas ocupam lugar central na constituição emocional do sujeito, pois é por meio delas que se constroem sentimentos de pertencimento, reconhecimento e valor subjetivo.
Desde os primeiros vínculos humanos, o indivíduo busca no outro acolhimento, validação emocional e segurança psíquica. Entretanto, algumas relações são marcadas por manipulação emocional, vínculos utilitários e falsas promessas afetivas. Quando as verdadeiras intenções emergem e as “máscaras caem”, instala-se uma dor psíquica profunda, frequentemente vivenciada como traição, abandono e desamparo emocional.
Na perspectiva da Psicanálise, a dor da “apunhalada pelas costas” ultrapassa a dimensão racional da simples decepção. O sofrimento não decorre apenas do afastamento do outro, mas da percepção de que o amor, a confiança e a entrega emocional talvez tenham encontrado, do outro lado, superficialidade, interesse ou incapacidade de sustentar um vínculo genuíno. O sujeito experimenta não apenas a ausência da pessoa amada, mas também o colapso da fantasia afetiva que sustentava sua experiência emocional e seus projetos subjetivos ligados à relação.
Segundo Sigmund Freud, o amor envolve investimento libidinal no objeto amado. O sujeito direciona parte significativa de sua energia psíquica ao outro, atribuindo-lhe valor simbólico e emocional elevado. Nesse processo, ocorre frequentemente a idealização, mecanismo por meio do qual desejos, expectativas e necessidades afetivas são projetados sobre a pessoa amada. Contudo, quando o vínculo se revela sustentado por manipulação emocional ou utilização narcísica, instala-se intensa ferida psíquica, atingindo diretamente o narcisismo e o sentimento de reconhecimento subjetivo.
A dor do abandono pode fazer o sujeito internalizar narrativas destrutivas sobre si mesmo. Muitas vezes, a pessoa passa a acreditar que não foi suficiente, que não possui valor afetivo ou que é facilmente substituível. Em termos psicanalíticos, o sofrimento ultrapassa a perda concreta do outro e alcança a destruição do lugar emocional que o sujeito acreditava ocupar naquela relação. Surge, então, sensação de vazio, humilhação e intensa dificuldade de reorganização emocional.
Nesse contexto, a elaboração psíquica torna-se fundamental para impedir que o abandono do outro se transforme em definição da própria existência. Superar essa experiência não significa apagar a história vivida ou deixar de sentir imediatamente, mas conseguir retirar o outro do centro organizador da própria vida psíquica. Trata-se de reconstruir gradualmente a identidade, os desejos e a percepção de valor pessoal para além da relação perdida.
Na prática, alguns movimentos podem auxiliar nesse processo de elaboração emocional. Reduzir contatos e estímulos que reativam constantemente o vínculo ajuda a diminuir a intensidade da dor psíquica.
Permitir-se viver o luto emocional sem pressa também é essencial, pois o sofrimento afetivo necessita de tempo para ser simbolizado. Além disso, escrever sobre os sentimentos, retomar atividades que devolvam sensação de identidade própria e fortalecer vínculos emocionalmente seguros favorecem a reconstrução subjetiva.
Em situações nas quais a dor se torna repetitiva, intensa ou paralisante, a busca por análise ou psicoterapia pode representar importante espaço de elaboração emocional. Na visão psicanalítica, elaborar a dor significa compreender que o abandono sofrido não define o valor do sujeito, mas revela, muitas vezes, as limitações emocionais daquele que foi incapaz de sustentar um vínculo verdadeiro.

Escrito pela Dra. Fabiana Fagundes Barasuol
Psicanalista – Graduada em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde
Psicopedagoga e Neuropsicopedagoga
Professora e Pesquisadora
Agendamento clínico: (55) 99987-6524







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